Que descanse em paz, Dr. Celso Barros. Hoje o Fluminense se veste de gratidão. E o futebol, de reverência ( por Cristian Oliveira)

Coluna Cristian Oliveira DESTAQUE Famosos

Algumas partidas parecem acontecer em silêncio, mas deixam marcas que ressoam. Hoje, a partida de Dr. Celso Barros trouxe esse silêncio pesado ao coração tricolor. Soube da sua partida, e imediatamente veio à memória a imagem daquele homem que, antes de ser executivo, médico ou presidente da Unimed, foi essencialmente um sujeito que acreditava. E acreditar, às vezes, vale mais do que qualquer título.

Era o fim dos anos 90, e o Fluminense ainda carregava as marcas de um período turbulento. Gil Carneiro de Mendonça, eleito em 1996, chegara com ares de renovação e decidiu priorizar os esportes olímpicos — escolha ousada, quase romântica, que acabou iluminando o basquete, campeão brasileiro, enquanto deixava o futebol apagado num canto, como um velho retrato esquecido na estante. E quando o futebol perde luz dentro de um clube como o Fluminense, o destino costuma cobrar caro: veio a queda para a Segunda, depois para a Terceira Divisão. A torcida caminhava cabisbaixa, tentando entender como um gigante podia se ver tão pequeno. Foi então que, nesse cenário acinzentado e cheio de dúvidas, surgiu a coragem de Celso Barros. Ele enxergou grandeza nos escombros, viu futuro onde quase ninguém via saída — e decidiu apostar no Fluminense. Apostou na reconstrução, no improvável, no renascimento.

Dr. Celso apareceu como quem não tem medo do escuro. Olhou para aquele Fluminense machucado, ferido de vaidade e de resultados, e ao invés de virar o rosto — como tantos fizeram — resolveu estender a mão. “Vamos juntos”, foi o que seu gesto disse, ainda que sem palavras. E assim a Unimed entrou, não por conveniência comercial, mas por um tipo raro de aposta: a aposta no improvável, no renascimento, no retorno de um gigante.

E ali, naquele momento em que o clube parecia menor do que sua própria história, Dr. Celso o tratou como gigante. O patrocínio não foi apenas dinheiro — foi respeito, foi coragem, foi fé. E fé é coisa que não cabe em contrato.

Por isso a notícia de sua partida nos faz lembrar que há pessoas que parecem feitas para ser eternas — não porque vivam para sempre, mas porque deixam marcas que não se apagam. E ele deixou. No coração tricolor, especialmente.

Eu era apenas um adolescente quando Dr. Celso chegou ao Fluminense, e foi como se meus sonhos, adormecidos, tivessem voltado a se acender junto com o clube. Pela primeira vez, voltei a acreditar que dias melhores eram possíveis, que um gigante podia se erguer mesmo depois de tantas quedas. Sou imensamente grato por tudo o que ele fez — por mim, por cada tricolor que sentiu esperança voltar a pulsar no peito. Dr. Celso Barros é inesquecível, e sua memória viverá eternamente. Ele partiu durante um batizado, e hoje, no instante em que se foi, eu também estava em outro batizado, lá no alto do Boa Vista, bem perto do Cristo Redentor. Senti como se o Cristo, braços sempre abertos, se inclinasse sobre o estádio das Laranjeiras, envolvendo o Fluminense e Dr. Celso em uma luz serena, como se o tempo se suspendesse e a eternidade se fizesse presente naquele instante.

Que descanse em paz, Dr. Celso Barros. Hoje o Fluminense se veste de gratidão. E o futebol, de reverência.

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