” Racionalidade” Opinião Cristian Oliveira

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Racionalidade

Foi o que faltou a nossa torcida.
Somos soberanos na vida do clube, temos que compreender bem esse papel, influenciamos decisões, para o bem ou para o mal. A demissão do Diniz pode ser compreendida de várias formas, mas a minha é a seguinte:

Para render seu melhor, em qualquer trabalho, é preciso de estímulo, tranquilidade, respaldo e confiança. Impossível render com tanta gente te xingando, vaiando, ameaçando na porta do trabalho. É óbvio que você vai tentar fazer o melhor, mas onde estará sua confiança? Isso é uma regra? Não! Mas num time, é preciso que 11 consigam render ao mesmo tempo com tanta pressão.

Ah! Mas se não quer pressão, não pode jogar no Fluminense, ok! Concordo.
Mas o que quero trazer, não é o fato da torcida não poder pressionar, mas o questionar.

É justo pressionar e demitir o Diniz? Pra mim, não.

Vamos lá, o Fluminense é um clube com enorme dificuldades para contratações, esta longe de estar entre as maiores receitas do País, tem uma dívida na casa dos 800 milhões. Diante deste cenário certamente não terá um elenco capaz de disputar todas as competições, e a culpa não será do treinador, seja ele quem for, é um processo de degradação financeira construído ao longo de muitos anos. Mas a cobrança quem vem das arquibancadas não leva nada disso em consideração, tem que ganhar!

Vitória Fluminense! Foi a frase que permeou a passagem do Diniz. Em 2 anos e 2 meses, fez o que nenhum outro conseguiu, em qualquer fase, seja na fase rica da era Unimed, seja na fase brilhante tecnicamente da máquina tricolor. NINGUÉM, foi capaz de conquistar a Libertadores.
Virgem das Américas! Quantas vezes você tricolor escutou e se machucou em escutar isso? Hoje não é mais assim.

Diniz conquistou acreditando num modelo de jogo dele, único, autoral. Ainda bem que não escutou nossa torcida, que muitas vezes pedia bico pra frente, pedia pra barrar o Martinelli, e ele bancou. Assim como fez com JK, herói do título. Um menino que estava com a carreira na lama, e Diniz cuidou como filho, porque como ele mesmo diz: o futebol é uma máquina de moer gente.

As relações humanas são deixadas de lado, o jogador passa a ser um número. Quantos gols? Quantas assistências? E agente pensa: e como está em casa? E a família? Saúde?
Jogador é gente, e Diniz mostrou, que além de ótimo profissional é também um ser humano muito foda!

Em campo, nos deu um título carioca, humilhando nosso maior rival, aplicando a maior goleada sobre eles numa decisão. Um chocolate no domingo de Páscoa, como dizia o saudoso rubro negro Apolinho. Nos deu o maior títulos do clube, a tão sonhada Libertadores, dentro do Maracanã, e o fantasma de 2008 estava exorcizado.
E pra finalizar, final da Recopa contra eles, LDU decidindo no Maraca. Título e êxtase, alma de todo tricolor lavada.

Chega 2024, um ano que em cinco meses já somamos quase 30 lesões, aliado ao poder de investimento do clube, como crucificar apenas o treinador pela queda de rendimento? O Fluminense tem um time titular, se olhar para o banco a queda técnica será absurda, diante de um quadro tão grande de lesões, como manter o nível do futebol apresentado nos últimos dois anos? Impossível!

Daí entra a cultura. Um país tão rico em suas tradições, eu diria que o país mais cultural do mundo, também mantém suas raízes no futebol, e por aqui, a culpa de tudo gira em torno do técnico, um típico pensamento simplista que na verdade esconde problemas crônicos. Demitir treinador é tratar apenas o sintoma de um clube doente, ao invés de entender a causa da doença.

A torcida do Flu que se insere na cultura, de responsabilizar o treinador, é a mesma que mata a cultura dentro do Maracanã. Estádio mítico, maior palco do futebol mundial, conhecido internacionalmente pelo colorido das arquibancadas, espontaneidade e principalmente pelo samba, ritmo nascido no Rio de Janeiro, eternizado na Sapucaí e nas arquibancadas. Entramos no setor sul nos jogos do Fluminense e nos deparamos com murgas e pratos comandando a massa, de olhos vendados qualquer um, se sentiria na La Bombonera. Já que a torcida foi capaz de importar algo tão danoso a cultura do estádio, dos nossos hermanos, que importemos também a capacidade de refletir e dividir responsabilidades, assim como os europeus. Caso contrário continuaremos a torcer para um time com a corda no pescoço financeiramente, e a expectativa de conquistas se tornará uma grande desilusão.

Que hoje a noite, o time possa mostrar a torcida, que eles só precisavam de um pouco de paz.

Cristian Oliveira

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